Guilherme Serrano
Na última semana, o mercado de tecnologia se viu tomado por duas perspectivas distintas em relação ao fornecimento dos chips semicondutores que compõem sistemas de inteligência artificial. De um lado, a ASML, maior fabricante de máquinas para produção de semicondutores, projeta uma queda nas vendas, enquanto a TSMC, gigante da fabricação dos microchips, fala em uma ‘demanda insana’. Mas o que isso significa para o futuro da IA?
Os semicondutores são materiais capazes de conduzir correntes elétricas e representam a matéria prima para a fabricação de microchips utilizamos em diversos aparelhos eletrônicos. Os sistemas de IA, por sua vez, utilizam esses microchips, e para que a inteligência artificial se desenvolva cada vez mais, esses pequenos componentes precisam acompanhar o ritmo. Ou seja: precisam ser ultravançados.
A ASML é uma multinacional holandesa que fabrica máquinas para a produção de chips. Já a Taiwan Semiconductor Manufacturing, ou TSMC, é a maior produtora global desses microchips.
Na última semana, as ações da ASML negociadas na Bolsa de Amsterdã caíram 16% em um único dia, o que marcou o pior desempenho em 26 anos. Isso se deu pois a empresa divulgou seus resultados do terceiro trimestre deste ano e os números decepcionaram os investidores: a ASML registrou menos da metade dos pedidos que projetava para o período, além de ter reduzido suas projeções de vendas para o ano que vem.
Um dos pontos que explicam os números abaixo do consenso são as restrições econômicas impostas pelos Estados Unidos, Holanda e outros países contra a China, que é o maior mercado consumidor da ASML e de outras empresas do setor.
Christophe Fouquet, CEO da companhia, afirmou que a recuperação do mercado será mais gradual do que o previsto, o que está causando cautela entre os clientes da ASML.
Enquanto isso, o CEO da TSMC, C.C. Wei, afirmou na mesma semana que a demanda “extremamente robusta” e “insana” por inteligência artificial deve continuar por anos. A empresa projeta que a demanda por chips de computação de alto desempenho mais que triplicará neste ano em relação a 2023.
Além disso, a TSMC estima que sua receita no último trimestre de 2024 ficará entre US$ 26,1 bilhões e US$ 26,9 bilhões, o que superaria o consenso do mercado e marcaria mais um trimestre recorde para a empresa.
Nessa esteira, a Nvidia, gigante mundial da tecnologia que é cliente da TSMC, viu suas ações subirem 4% e atingirem uma nova máxima histórica de US$ 140,89, com os investidores criando boas expectativas diante das falas de Wei.
O que temos, portanto, é a fabricante das máquinas que produzem os microchips afirmando que a demanda está aquém do imaginado e a fabricante dos chips propriamente ditos falando em crescimento. A contradição é que as duas estão expostas a um mesmo contexto geopolítico, enquanto o que está em jogo é a capacidade desses componentes eletrônicos nutrirem uma IA em ascensão.
A TSMC, otimista, parece não estar sentindo a fraqueza do mercado chinês decorrente das sanções econômicas, e segue avançando no desenvolvimento dos chips. Acontece que, segundo a Reuters, a empresa está sendo investigada pelo governo dos Estados Unidos por supostamente fornecer chips para a chinesa Huawei, mesmo diante das sanções.
Portanto, a questão aqui é entender até que ponto as relações econômicas entre as duas maiores potências globais – Estados Unidos e China – podem ou não obstruir o pujante avanço da inteligência artificial e da tecnologia como um todo. Afinal, a impressão que fica é a de que a demanda e os recursos existem, mas que embargos e relações diplomáticas abaladas podem se traduzir em barreira para um avanço aparentemente irrefreável.
Guilherme Serrano
