Guilherme Serrano
Segundo reportagem do Fantástico exibida no último domingo (6) na Rede Globo, as denúnicas contra conteúdos criminosos no Discord aumentaram 272% no primeiro trimestre deste ano frente ao mesmo período de 2024.
A matéria traz à tona novas e preocupantes revelações sobre o uso da plataforma para a prática de crimes sobretudo contra crianças e adolescentes. Além disso, mostra como forças policiais e promotores de diversas regiões do Brasil estão se infiltrando em comunidades virtuais para tentar frear uma crescente onda de violações: chantagens com imagens íntimas, indução à automutilação, incitação ao suicídio, estupros virtuais e até aliciamento por organizações criminosas.
Originalmente criado para reunir comunidades gamers, o Discord se transformou em um terreno fértil para grupos que operam nas sombras da internet. Apesar de avanços no uso de algoritmos de detecção automática e na cooperação com autoridades, ainda há uma grande lacuna na atuação preventiva da plataforma.
As ações mais eficazes, até agora, partem das autoridades: uma força-tarefa da Polícia Civil de São Paulo conseguiu impedir, em tempo real, um caso de estupro virtual e até evitou um suicídio, acionando socorro de emergência a tempo. Desde novembro de 2024, quando esse núcleo de investigação foi criado, já foram 92 vítimas resgatadas.
Enquanto isso, o Discord é investigado por suposta negligência em casos críticos. Em uma das denúncias apresentadas pelo Fantástico, a plataforma teria se recusado a derrubar uma live que transmitia tortura psicológica em tempo real, sob a justificativa de não ser um caso grave.
Segundo Fábio Costa Pereira, procurador do Núcleo de Prevenção à Violência Extrema do Ministério Público do Rio Grande do Sul, em pouco mais de um ano, já foram identificados 178 adolescentes em risco de violência extrema ou envolvimento com grupos criminosos online no estado.
Muitos desses jovens, diz Pereira, são atraídos por discursos que oferecem pertencimento a jovens isolados, vítimas de bullying e negligência emocional. A radicalização, segundo o procurador, acontece quando a internet deixa de ser uma ferramenta e passa a preencher vazios existenciais. O excesso de exposição às telas, a ausência de diálogo familiar e experiências traumáticas no ambiente escolar são os principais catalisadores desse processo.
O que os pais podem fazer?
Apesar de todo o aparato tecnológico envolvido nesses crimes, a prevenção ainda começa com o básico: diálogo, presença e limite. De acordo com especialistas, algumas dicas para os pais são:
- Converse com seus filhos: uma vez por semana, no mínimo, sobre o que eles estão vendo, com quem estão conversando e como se sentem nas redes. O simples hábito de perguntar pode ser a primeira linha de defesa.
- Reforce o cuidado com estranhos no ambiente virtual: a velha regra de “não fale com desconhecidos” vale tanto no mundo real quanto no digital.
- Respeite os limites de idade para uso de telas: a Sociedade Brasileira de Pediatria orienta que crianças com menos de 7 anos não usem telas, e que o uso entre 7 e 13 anos seja restrito e supervisionado. A liberação total, mesmo, só é recomendada a partir dos 16 anos — e ainda assim, com acompanhamento.
A reportagem do Fantástico sobre os crimes no Discord é um alerta duro, mas necessário. O uso consciente das redes sociais exige mais do que filtros de conteúdo: ela passa também por uma vigilância e pela responsabilização das plataformas. O avanço das investigações é um passo importante, mas o caminho para uma internet mais segura ainda depende de uma aliança entre famílias, educadores, desenvolvedores de tecnologia e autoridades.
Guilherme Serrano
